A experiência sonora em veículos de luxo é frequentemente um dos pilares na decisão de compra. No entanto, proprietários do Jeep Commander têm levantado sérias preocupações sobre a autenticidade e a qualidade do sistema de som anunciado como Harman Kardon. A alegação central é que, em vez de componentes genuínos da renomada marca de áudio, o sistema estaria utilizando alto-falantes da Mopar, braço de peças e serviços da Stellantis. Essa descoberta tem gerado frustração e busca por ações legais por parte dos consumidores.
A suspeita começou a ganhar força em fóruns online dedicados a modelos Jeep. Um proprietário do Jeep Commander 2025, o professor Andres Zarankin, de Belo Horizonte (MG), notou inconsistências e relatou ter encontrado evidências de peças Mopar ao invés de Harman Kardon. “Diziam que, ao desmontarem os sistemas, encontraram equipamentos com a marca Mopar“, compartilhou o consumidor, iniciando uma jornada que o levaria a questionar a montadora.
Ao contatar a Jeep Central do Cliente via WhatsApp, Andres foi orientado a procurar uma concessionária. Contudo, a Strada Jeep, em Belo Horizonte, solicitou um valor de R$ 1.000 apenas para desmontar um alto-falante. Diante da recusa em autorizar o serviço e após consultar o catálogo de peças da Stellantis, ele identificou o número de referência do alto-falante (51972777, para a porta dianteira) como uma peça Mopar. Essa constatação serviu como gatilho para uma ação judicial.
O Processo Judicial Contra a Stellantis
O professor Andres Zarankin decidiu ingressar com uma ação judicial contra a Stellantis, buscando indenização por danos morais. O argumento principal reside na alegação de que ele pagou por um sistema de som premium que não entregava o prometido. Durante o processo, a defesa da Stellantis apresentou um contraponto significativo. A empresa alegou que os equipamentos não eram Harman Kardon em si, mas sim parte de um projeto acústico superior.
A argumentação da montadora sustentava que é uma prática comum em sistemas certificados por marcas premium a utilização de peças de diferentes fabricantes, como a Mopar. Segundo a Stellantis, a essência de um som premium não reside na marca impressa em cada alto-falante individualmente, mas sim no projeto acústico geral, no amplificador, na equalização, no software e no padrão técnico validado pela marca certificadora. Essa distinção, entretanto, não foi comunicada claramente ao consumidor no momento da aquisição.
A juíza de direito Denise Canedo Pinto, da 2ª Unidade Jurisdicional Cível – 6º JD da Comarca de Belo Horizonte, proferiu a sentença. A magistrada considerou que o fato de o sistema ser composto por um projeto acústico e peças de fornecedores variados, mas não explicitamente comunicados como tal, não foi devidamente repassado ao consumidor. O Jeep Commander foi comercializado sob a premissa de possuir um sistema de som premium certificado.
Posicionamento Oficial da Stellantis e Relatos de Proprietários
Em resposta às nossas apurações, a Stellantis confirmou que o sistema de som do Jeep Compass é Beats, fabricado na América do Norte. Para o Jeep Commander, a empresa reitera que o sistema é Harman Kardon, produzido na América do Sul e aprovado pela Harman US. Essa declaração oficial busca reforçar a validação da marca premium, mas não aborda diretamente a questão dos alto-falantes Mopar.
Em contrapartida, relatos de proprietários continuam a surgir, pintando um quadro de insatisfação. Um dono de Jeep Commander 2022 de Campinas (SP), cujo relato foi editado do Reclame Aqui, expressou frustração. “Adquiri um Commander, carro supostamente premium, e, ao ligar o som, com falantes Harman Kardon, começou a tremer muito, com barulho irritante nos graves. Levei na concessionária e a assistente informou ser assim devido à porta ser grande. Estou bem frustrado.” Este depoimento sugere que mesmo com a chancela da marca, a experiência sonora não atende às expectativas.
Outro relato, editado do Reclame Aqui de um proprietário em Curitiba (PR), dono de um Jeep Commander 2024, reforça o descontentamento. “Um dos motivos que apresentaram para eu comprar o Commander foi a alta qualidade do som. Porém, o equipamento é péssimo, impossível ouvir sem se aborrecer! O carro já foi para a concessionária ao menos cinco vezes, ficou mais de 30 dias com eles, e não resolveram. Por fim, disseram que o som, parecendo uma caixa de abelhas, de um carro de mais de R$ 300.000, é característico.” Estes relatos demonstram uma desconexão entre a percepção do consumidor e a realidade sonora percebida, mesmo em veículos de alto valor agregado.

Análise Técnica e Implicações para o Consumidor
A questão central reside na transparência e na percepção de valor. Quando um consumidor paga um valor adicional por um sistema de som premium, espera-se que todos os componentes principais reflitam essa qualidade. A alegação da Stellantis de que o projeto acústico é o diferencial é tecnicamente válida em muitos cenários, pois a integração de todos os elementos (amplificador, DSP, fiação, etc.) é crucial para a performance final do áudio. No entanto, a utilização de alto-falantes de uma marca diferente, sem comunicação clara, pode ser percebida como uma omissão ou até mesmo uma falha em honrar o contrato implícito de venda.
Para o Jeep Commander, essa polêmica em torno do Jeep Commander som Harman Kardon pode impactar a reputação da Jeep e da Stellantis no mercado de SUVs premium. A confiança do consumidor é um ativo valioso, e a percepção de que a marca não está sendo totalmente transparente pode levar a um escrutínio maior de seus produtos e práticas de marketing. Além disso, casos como o do professor Andres Zarankin podem abrir precedentes para outras ações judiciais semelhantes, caso mais proprietários se sintam lesados.
É importante notar que a certificação Harman Kardon envolve um rigoroso processo de validação, que abrange a calibração do sistema completo, não apenas a marca dos alto-falantes individuais. Contudo, a percepção do consumidor é moldada pela informação disponível no momento da compra. A ausência de menção à Mopar nos materiais de divulgação, como o catálogo de peças, pode ser interpretada como uma estratégia para mascarar a real composição do sistema de áudio.
Diante deste cenário, a recomendação para os proprietários de Jeep Commander que experimentam problemas com o sistema de som é documentar todas as interações com a concessionária e a montadora. A busca por órgãos de defesa do consumidor ou assessoria jurídica pode ser um caminho viável para quem se sente lesado. O Jeep Commander, posicionado como um SUV premium, exige que suas características de conforto e entretenimento estejam à altura das expectativas e do preço pago.
Ficha Técnica
- Marca
- Jeep
- Modelo
- Commander
- Ano do Modelo Citado
- 2025 (e relatos de 2022 e 2024)
- Sistema de Som Prometido
- Harman Kardon
- Componentes Suspeitos
- Alto-falantes Mopar (referência 51972777 para porta dianteira)
- Fabricante dos Alto-falantes (segundo Stellantis)
- Mopar (parte do projeto Harman Kardon)
- Posicionamento do Veículo
- SUV Premium
- Ações Legais
- Processo por danos morais movido por proprietário em Belo Horizonte
- Argumento da Stellantis
- Projeto acústico, amplificador, equalização e software validados pela Harman Kardon.
FAQ
O que é a marca Mopar?
Mopar é a marca global de peças, serviços e atendimento ao cliente da Stellantis. Ela abrange peças originais para todos os veículos do grupo, incluindo Jeep, Fiat, Chrysler, Dodge e Ram. Sua função principal é fornecer componentes de reposição e acessórios, garantindo a compatibilidade e a qualidade esperada pelos fabricantes. Embora seja frequentemente associada a peças de reposição, a Mopar também pode estar envolvida no fornecimento de componentes para a linha de montagem original, como parece ser o caso no sistema de som do Jeep Commander.
Por que a Stellantis argumenta que o projeto acústico é o diferencial do som premium?
A Stellantis argumenta que a qualidade de um sistema de som premium em um veículo é o resultado da integração de diversos elementos. Isso inclui não apenas os alto-falantes, mas também o amplificador, o processamento digital de sinais (DSP), a equalização do áudio, o software de controle e o design acústico do habitáculo do veículo. Segundo a montadora, a chancela da Harman Kardon se refere à validação desse projeto completo, garantindo que o som atinja um padrão de excelência, mesmo que alguns componentes individuais sejam fornecidos por outra marca do grupo, como a Mopar. A ideia é que a sinergia entre as partes é mais importante do que a marca estampada em cada peça isoladamente.
Quais são os direitos do consumidor em casos de propaganda enganosa sobre sistemas de som?
Em casos de propaganda enganosa, onde um produto é anunciado com características superiores às que realmente entrega, o consumidor tem direitos assegurados pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC). A informação divulgada pelo fornecedor, seja em publicidade ou no momento da venda, vincula a empresa. Se o sistema de som anunciado como premium não atende a essa expectativa, o consumidor pode exigir o cumprimento forçado da oferta, aceitar outro produto equivalente ou rescindir o contrato, com direito à restituição da quantia paga, monetariamente atualizada, e a eventuais perdas e danos. A omissão de informações relevantes, como a origem dos componentes, também pode caracterizar publicidade enganosa.
Como a reputação da Jeep pode ser afetada por essa polêmica do som?
A reputação de uma marca automotiva, especialmente em segmentos de maior valor agregado como o dos SUVs premium, é construída sobre a confiança e a percepção de qualidade e transparência. Escândalos envolvendo a autenticidade ou a qualidade de componentes anunciados como premium podem abalar essa confiança. Se os consumidores perceberem que a Jeep não foi totalmente transparente sobre a composição do sistema de som do Jeep Commander, isso pode levar a um questionamento da integridade das suas promessas de marketing em geral. A insatisfação expressa em relatos de proprietários, especialmente em plataformas de avaliação e redes sociais, tem o potencial de desacelerar vendas e impactar a percepção de valor do modelo e da marca a longo prazo.







